30 anos de Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha

30 anos de Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha
Não existem registros e descrições da aparência de Tereza de Benguela. A imagem é comumente associada a líder e é meramente ilustrativa. / "Mulher negra sentada, vista frontal" Óleo sobre tela do pintor suíço Félix Vallotton (1865-1925).

No dia 25 de julho é comemorado o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. A data foi cunhada em 1992 como meio de dar alguma visibilidade à resistência dessas mulheres. A instituição ocorreu durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas sediado na República Dominicana, que tinha como objetivo debater o sexismo e o racismo.

No Brasil, desde junho de 2014, pela Lei nº 12.978, a data também celebra a líder quilombola Tereza de Benguela, que nasceu no século XVIII e lutou junto a comunidades negras e indígenas contra a escravidão. Tereza era a representante do Quilombo Quariterê, localizado no Mato Grosso, e se destacou por organizar o plantio e segurança do lugar, além de criar uma espécie de Parlamento.

A realidade atual do Brasil

Mais tarde, no final dos anos 70, o trabalho da antropóloga, ativista e filósofa mineira Lélia Gonzalez e da filósofa e ativista paulista Sueli Carneiro revolucionaram o feminismo negro no Brasil.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE de 2019, as mulheres negras representam cerca de 28% da população brasileira, que também ocupam o último lugar da pirâmide da desigualdade social e de representação política conforme a mesma pesquisa de 2018. Além disso, 68% das mulheres assassinadas no Brasil são negras, de acordo com o Mapa da Violência 2020.

Literatura negra

Esses dados demonstram o motivo de ainda ser importante haver resistência e visibilidade ao movimento de mulheres negras. A literatura é uma forma de dar voz às esse grupo e, pensando nisso, selecionamos algumas importantes autoras latino-americanas e caribenhas:

  1. Por um feminismo afro-latino-americano
    Sinopse: Com organização de Flavia Rios e Márcia Lima, Por um feminismo afro-latino-americano reúne em um só volume um panorama amplo da obra desta pensadora tão múltipla quanto engajada. São textos produzidos durante um período efervescente que compreende quase duas décadas de história — de 1979 a 1994 — e que marca os anseios democráticos do Brasil e de outros países da América Latina e do Caribe.
  2. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil
    Sinopse: Entre 2001 e 2010, a ativista e feminista negra Sueli Carneiro produziu inúmeros artigos publicados na imprensa brasileira. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil reúne, pela primeira vez, os melhores textos desse período. Neles, a autora nos convida a refletir criticamente sobre a sociedade brasileira, explicitando de forma contundente como o racismo e o sexismo têm estruturado as relações sociais, políticas e de gênero.
  3. Cartas para a minha mãe
    Sinopse: Uma menina escreve cartas para sua mãe morta. Através delas, descobrimos que ela precisou ir morar com a tia e as primas, que não gostam dela. As garotas não se cansam de reforçar que ela deveria fazer um esforço para disfarçar sua cor e ficar mais parecida com uma pessoa branca. Este é um romance emocionante sobre perdas irreparáveis e o poder restaurador do amor e do autorespeito. Ambientada em Cuba, a narrativa desafia nossas crenças sobre essa ilha que, afinal, conhecemos tão pouco.
  4. Cartas a uma negra
    Sinopse: Concebido como um conjunto de cartas, datadas entre 1962 e 1964, o texto vai ganhando profundidade e variedade estilística à medida que a autora mergulha no processo de escrita. Entre seus personagens, além das babás, empregadas domésticas e faxineiras, estão também as autoritárias (e tacanhas) patroas e seus filhos mimados. São histórias por vezes chocantes de trabalhadoras sem acesso à saúde, férias ou mesmo a uma moradia minimamente confortável.
  5. Heroínas negras brasileiras: em 15 cordéis
    Sinopse: Talvez você já tenha ouvido falar de Dandara e Carolina Maria de Jesus. Mas, e Eva Maria do Bonsucesso? Luisa Mahin? Na Agontimé? Tia Ciata? Essas (e tantas outras) mulheres negras foram verdadeiras heroínas brasileiras, mas pouco se fala delas, seja na escola ou nos meios de comunicação. Diante desse apagamento, a escritora Jarid Arraes vem há anos se dedicando a recuperar — e recontar — suas histórias. A multiplicidade de histórias revela as mais diversas estratégias de sobrevivência e resistência, seja na linha de frente — como Tereza de Benguela, que liderou o quilombo de Quariterê — ou pelas brechas — como a quituteira Luisa Mahin, que transmitia bilhetes secretos durante a Revolta dos Malês. Este livro reúne quinze dessas histórias impressionantes, ilustradas por Gabriela Pires.

Confira mais livros sobre o assunto.

Elizabeth Acevedo e a literatura contemporânea de ficção afro-latina

Elizabeth Acevedo é uma premiada escritora best-seller dominicana-americana. Além de ser reconhecida por seus romances Young Adult — celebrados por trazerem representatividade afro-latina —, também é poetisa com experiência em poesia performática, conquistando o título de Campeã Nacional de Declamação de Poesia. Sua história a levou a narrar os audiobooks de sua autoria em inglês.

Bacharel em artes cênicas e mestre em escrita criativa, Acevedo utiliza a ficção para abordar temas importantes que geram identificação entre as jovens leitoras. As pautas tratam de sexismo, racismo, sexualidade, religião, classe social e, principalmente, de identidade cultural e racial.

Seu livro de estreia, Poeta X, foi publicado no Brasil pelo selo Galera do Grupo Editorial Record. Ele está disponível na Skeelo Store e traz a poesia como forma de expressão da personagem, tornando-se um romance escrito em versos.

Os outros dois romances da autora — Agora que ele se foi e Em fogo alto — foram publicados no Brasil pela editora Nacional, e ambos encontram-se disponíveis na Skeelo Store. O primeiro também utiliza versos e é inspirado na tragédia envolvendo o vôo 587 da American Airlines. A autora, engenhosamente, utiliza a distância geográfica e cultural entre duas irmãs para desenvolver um relacionamento afetado pelo acidente aéreo. Já o segundo traz temas como maternidade, carreira e amizade, contando a história de uma jovem mãe que precisa conciliar família, escola e trabalho.

Convidamos a escritora, tradutora e revisora Karine Ribeiro — que trabalhou nos dois últimos livros da autora — para compartilhar um pouco da experiência de trabalhar com os livros de Elizabeth: “A literatura de Elizabeth Acevedo é como um abraço apertado de irmã mais velha: aconchegante e amorosa. Trabalhar nos livros dela faz esse abraço durar mais alguns instantes; sem perceber, eu me pegava sorrindo, acalentada, lendo uma sabedoria que só pode ser passada por alguém com quem compartilhamos um forte laço. Ela discute questões de raça, gênero e sexualidade sem perder a naturalidade inerente à literatura jovem. Acevedo é uma escritora necessária.”

A literatura é uma das muitas formas de dar voz às mulheres negras, seja por obras de ficção ou não ficção, contemporâneas ou clássicas.