Skeelo na Bienal do Livro: Ana Paula Araújo fala sobre ebook "Abuso"

Skeelo na Bienal do Livro: Ana Paula Araújo fala sobre ebook "Abuso"
Ana Paula Araújo é autora de "Abuso: a cultura do estupro no Brasil" (Foto: Reprodução / Instagram @appaaraujo)

O Skeelo Talks trouxe Roberta Camargo para mediar um bate-papo com a jornalista Ana Paula Araújo para falar sobre a produção do livro “Abuso”. Na obra, Ana Paula faz uma reportagem sobre o medo e a vergonha das vítimas de abuso. Foram quatro anos de pesquisas, viagens pelo Brasil inteiro e mais de cem entrevistas com vítimas, familiares, especialistas, psiquiatras e criminosos. O livro está disponível em formato de ebook e audiobook no aplicativo do Skeelo.

Ana Paula falou sobre o processo de pesquisa e de escrita do livro, contando suas percepções e conclusões sobre os casos que chegaram até ela. Roberta enfatizou a questão da culpabilização da vítima, sobre como a sociedade sempre arranja uma forma de justificar o abuso que aquela pessoa sofreu, como perguntar qual era a roupa que estava usando, os lugares que frequenta e a forma como se comporta. “Isso é muito comum. É uma maneira de jogar a culpa para cima da mulher. Eu digo que precisamos ficar atentas porque esse julgamento vem de muitos lados”, explica Ana Paula.

Sobre denunciar situações de abuso, a jornalista foi direta: “Todos nós temos que nos indignar com a situação, tem que ser revoltante para todo mundo, tem que ser uma luta de todos. A denúncia é muito importante, mas mais do que isso: só a vítima pode saber se ela tem condições de denunciar, porque é um caminho muito árduo, muito difícil”.

Ana Paula também enfatizou o quanto é essencial que as vítimas sejam acolhidas por profissionais capacitados. “Temos que exigir o que a mulher vai encontrar quando for denunciar: delegacia da mulher, médicos e profissionais de saúde preparados para essa situação…”, afirma. A jornalista acrescenta que a informação é algo urgente e valioso. “Precisamos falar mais sobre o assunto para que não seja tabu. É preciso ter mais campanhas esclarecedoras. A informação é o que vai virar esse jogo. Informação e luta das mulheres para que todos tenhamos um ambiente melhor”, diz.

Ana Paula conta que, durante as entrevistas que fez para o livro, se deparou com situações muito peculiares que permitiram que ela percebesse que existem limites tênues para a mulher se dar conta de que foi abusada. “Existe uma cobrança de que ela precisa manter o casamento perdoando tudo, aguentando tudo, seja por ela ou pelos filhos”, relata a jornalista.

Quando questionada sobre o feedback do livro, Ana diz que recebeu gratas surpresas. “O que mais escutei de mulheres foi que, depois de lerem o livro, se sentiram de alma lavada, menos sozinhas, que entenderam que não são culpadas, que ficaram melhores e mais fortes”, ressalta. “Isso me faz crer que a união de todas nós é o que vai nos levar para frente”.

Roberta concorda e enfatiza a importância da informação, dizendo que os jovens precisam estar conscientes e alertas sobre o assunto. Ana Paula concorda e reforça: “Ainda é preciso focar na educação dos meninos. Ainda me surpreende muito a educação machista que eles recebem. Essa educação não é só ruim porque coloca nós mulheres em situação de vulnerabilidade, mas coloca os homens numa posição ruim de não conseguirem se expressar, por exemplo”.

Foi aberta uma rodada para perguntas da plateia. Ana Paula responde como conseguiu, como jornalista, encontrar um equilíbrio ao fazer a apuração: “Temos que nos indignar com a situação, mas na profissão nós não podemos deixar isso nos consumir a ponto de prejudicar ao passar as notícias”. A autora finalizou a rodada explicando como o tema do livro foi escolhido. “Achei que como jornalista precisava fazer mais. Eu tenho uma filha de dezesseis anos e achei que era necessário falar sobre o assunto, porque quando fui pesquisar encontrei poucos livros sobre. Então senti que era hora de falar sobre isso”, conclui.

Confira o bate-papo completo: